Introdução
Imagine uma pessoa que passou anos defendendo uma determinada ideia.
Ela falou sobre essa ideia com amigos, publicou textos nas redes sociais, discutiu com pessoas que discordavam dela e construiu parte de sua identidade em torno daquela posição.
Então surgem informações que contradizem aquilo em que ela acreditava.
Inicialmente, talvez ela sinta apenas desconforto.
Depois começa a procurar explicações.
"Isso foi tirado de contexto."
"Essa informação é falsa."
"Todo mundo faz isso."
"Meu grupo também erra, mas é diferente."
"Ele pode ter feito isso, mas fez coisas boas."
"Não acredito nessa fonte."
"Estão perseguindo essa pessoa."
Pouco a pouco, a pessoa começa a construir argumentos para preservar sua crença original.
O curioso é que isso pode acontecer mesmo quando existem evidências bastante fortes contra aquilo que ela defendia.
Por que isso acontece?
Uma das explicações mais importantes da Psicologia Social é o fenômeno conhecido como dissonância cognitiva.
O conceito foi desenvolvido pelo psicólogo americano Leon Festinger, que publicou em 1957 a obra A Theory of Cognitive Dissonance. A ideia central é relativamente simples: quando mantemos simultaneamente cognições que entram em conflito, por exemplo, uma crença e uma informação que a contradiz, experimentamos um estado de tensão psicológica.
E essa tensão produz uma motivação para reduzi-la.
O problema é que existem diferentes maneiras de diminuir esse desconforto.
Uma delas é admitir que estávamos errados e modificar nossa crença.
Outra, muitas vezes mais confortável, é modificar a maneira como interpretamos os fatos.
É nesse ponto que a dissonância cognitiva se torna particularmente interessante.
O ser humano não possui apenas a capacidade de buscar informações que confirmem aquilo em que acredita. Ele também possui uma extraordinária capacidade de justificar aquilo em que já decidiu acreditar.
E isso pode acontecer com praticamente qualquer pessoa.
Não é uma característica exclusiva de pessoas ignorantes, fanáticas ou mal-intencionadas.
É um mecanismo psicológico humano.
Por isso, compreender a dissonância cognitiva não serve apenas para entender "por que os outros defendem o indefensável".
Serve também para compreender por que nós mesmos podemos fazer isso.
1. O que é dissonância cognitiva?
A palavra "cognição" pode parecer complicada, mas significa, de maneira geral, aquilo que sabemos, pensamos, percebemos ou acreditamos.
Uma pessoa possui inúmeras cognições ao mesmo tempo.
Ela pode acreditar que é uma pessoa honesta.
Pode acreditar que determinada instituição é confiável.
Pode acreditar que seu partido político representa seus valores.
Pode acreditar que seu líder religioso é uma pessoa moral.
Pode acreditar que possui bom senso.
Pode acreditar que costuma tomar decisões racionalmente.
Enquanto essas crenças não entram em conflito, não existe necessariamente um problema.
A dificuldade surge quando duas dessas ideias se chocam.
Imagine alguém que acredita:
"Eu sou uma pessoa justa."
Ao mesmo tempo, essa pessoa descobre que tomou uma decisão extremamente injusta contra alguém.
Surge então um conflito.
"Sou uma pessoa justa" entra em contradição com "cometi uma injustiça".
Essa incompatibilidade produz desconforto.
Esse desconforto é a dissonância cognitiva.
É importante entender que a dissonância não é simplesmente "estar errado".
Uma pessoa pode estar certa ou errada e ainda experimentar dissonância.
O ponto central é a incompatibilidade entre elementos psicológicos.
Por exemplo:
"Eu amo essa pessoa."
e
"Essa pessoa me trata mal."
As duas ideias podem coexistir, mas entram em conflito.
Quanto maior a importância daquela crença para a pessoa, maior pode ser o desconforto provocado pela contradição.
2. O cérebro quer reduzir o desconforto
Quando surge uma contradição, geralmente tentamos recuperar algum tipo de coerência.
Existem várias maneiras de fazer isso.
Uma delas é mudar nosso comportamento.
Outra é mudar nossa opinião.
Outra é reinterpretar a situação.
Outra é procurar novas informações.
E outra é simplesmente rejeitar aquilo que contradiz nossa crença.
Imagine alguém que acredita:
"Meu político favorito é extremamente honesto."
Então aparece uma denúncia envolvendo corrupção.
A pessoa agora possui duas informações incompatíveis:
"Meu político é honesto."
e
"Existem evidências de que ele praticou corrupção."
Isso produz tensão.
A pessoa poderia resolver o conflito de várias maneiras.
Poderia dizer:
"Talvez eu tenha me enganado sobre ele."
Essa seria uma forma de reduzir a dissonância modificando a crença original.
Mas essa solução pode ser emocionalmente difícil.
A pessoa talvez tenha votado nele durante anos.
Talvez tenha discutido com familiares por causa dele.
Talvez tenha defendido seu político nas redes sociais.
Talvez tenha colocado aquela figura pública como símbolo de seus próprios valores.
Admitir o erro significaria enfrentar tudo isso.
Então surge outra possibilidade:
"Essa denúncia é uma perseguição política."
Agora a pessoa não precisa abandonar sua crença.
Ela encontrou uma explicação alternativa.
A tensão diminui.
É justamente aí que podemos começar a compreender por que pessoas inteligentes podem defender posições aparentemente contraditórias.
3. Admitir que estamos errados pode ser emocionalmente difícil
Existe uma diferença enorme entre descobrir que uma informação estava errada e descobrir que nós estávamos errados.
A primeira situação pode ser relativamente simples.
"Eu achava que determinada informação era verdadeira, mas descobri que não era."
A segunda pode atingir diretamente nossa autoestima.
"Eu defendi isso durante anos e estava errado."
O problema fica ainda maior quando outras pessoas sabem que defendemos aquela posição.
Imagine alguém que passou anos dizendo:
"Eu tenho certeza absoluta de que isso é verdade."
Depois surgem evidências mostrando que a pessoa estava equivocada.
Admitir o erro publicamente exige humildade.
Mas também pode produzir vergonha.
A pessoa pode pensar:
"O que os outros vão pensar de mim?"
"Vão rir de mim."
"Vão dizer que eu sou ignorante."
"Como vou explicar que passei anos defendendo isso?"
Em determinadas circunstâncias, torna-se psicologicamente mais fácil continuar defendendo a posição anterior.
Não necessariamente porque a pessoa tenha analisado novamente todas as evidências.
Mas porque abandonar a crença tem um custo emocional.
4. Quando uma crença se transforma em identidade
Aqui encontramos uma das questões mais importantes.
Uma opinião é relativamente fácil de mudar.
Uma identidade é muito mais difícil.
Considere duas situações.
Na primeira, alguém diz:
"Eu acho que esse político é bom."
Na segunda:
"Eu sou de direita."
Ou:
"Eu sou de esquerda."
Ou:
"Eu sou cristão."
Ou:
"Eu sou ateu."
Ou:
"Eu sou conservador."
Ou:
"Eu sou progressista."
Nesses casos, a crença deixa de ser apenas uma opinião isolada.
Ela passa a fazer parte da maneira como a pessoa define a si mesma.
Isso muda completamente o problema.
Se alguém critica uma opinião nossa, podemos simplesmente discordar.
Mas quando uma opinião está ligada à nossa identidade, uma crítica pode ser percebida como uma ameaça pessoal.
É como se a pessoa escutasse:
"Essa ideia está errada."
mas interpretasse:
"Você está errado."
E, em alguns casos, a interpretação vai ainda mais longe:
"Você é uma pessoa ruim."
É nesse momento que uma discussão sobre ideias pode transformar-se rapidamente em uma disputa emocional.
5. Quando criticar uma crença parece um ataque pessoal
Imagine uma pessoa cuja identidade está profundamente ligada a determinado grupo religioso.
Ela não apenas acredita naquela religião.
Sua família pertence àquela comunidade.
Seus amigos estão naquele grupo.
Seu casamento aconteceu dentro daquela tradição.
Seus filhos foram educados naquela tradição.
Ela participa de atividades da instituição.
Grande parte de sua vida social está relacionada àquela comunidade.
Agora imagine que alguém apresente uma crítica histórica àquela religião.
Mesmo que a crítica seja acadêmica e cuidadosamente fundamentada, ela pode ser recebida como uma agressão.
Por quê?
Porque a pessoa não está protegendo apenas uma proposição intelectual.
Está protegendo um sistema de pertencimento.
Abandonar aquela crença pode significar, na imaginação da pessoa, perder amigos, decepcionar familiares ou romper com uma comunidade.
O custo psicológico da mudança se torna muito maior.
Por isso, determinadas crenças podem ser extremamente resistentes às evidências.
6. A dissonância cognitiva na política
A política oferece exemplos particularmente visíveis desse fenômeno.
É comum encontrarmos pessoas que defendem determinados princípios quando eles favorecem o próprio grupo, mas relativizam esses mesmos princípios quando envolvem adversários.
Uma pessoa pode afirmar:
"Político corrupto tem que ser preso."
Mas, quando uma acusação semelhante envolve alguém de quem ela gosta, a reação pode mudar:
"É preciso esperar a investigação."
Até aí, não existe necessariamente problema.
Esperar investigação antes de condenar alguém é, inclusive, uma postura correta.
O problema aparece quando o mesmo critério não é aplicado aos adversários.
Nesse caso, podemos observar um padrão de dois pesos e duas medidas.
Quando o político adversário é acusado:
"Está provado que ele é corrupto."
Quando o político apoiado é acusado:
"Não existe prova suficiente."
Mesmo que as situações sejam semelhantes.
Essa diferença pode ser explicada por diversos fatores psicológicos e sociais, e a dissonância cognitiva é um deles.
A pessoa deseja preservar uma imagem positiva de seu grupo e de seus representantes.
Para isso, pode interpretar informações semelhantes de maneiras diferentes.
7. "Eu não tenho bandido de estimação"
Essa expressão tornou-se bastante comum no debate político brasileiro.
Em princípio, ela representa uma posição perfeitamente coerente:
"Não importa quem cometeu o crime. Eu condenarei o comportamento."
O problema aparece quando a prática não acompanha o discurso.
Uma pessoa pode acreditar sinceramente que não possui "bandido de estimação" e, ao mesmo tempo, apresentar resistência muito maior quando uma denúncia envolve seu próprio grupo político.
Isso não significa necessariamente que esteja mentindo conscientemente.
Ela pode realmente acreditar que está sendo imparcial.
É justamente aí que os mecanismos psicológicos se tornam interessantes.
Quando gostamos de uma pessoa, instituição ou grupo, tendemos a interpretar informações relacionadas a eles dentro de um contexto emocional diferente.
O mesmo fato pode parecer gravíssimo quando envolve o adversário e relativamente insignificante quando envolve alguém que admiramos.
O pensamento crítico exige justamente a capacidade de perguntar:
"Eu julgaria essa situação da mesma maneira se acontecesse com alguém de quem eu não gosto?"
Essa é uma pergunta simples, mas extremamente poderosa.
8. Dissonância cognitiva e religião
A religião também oferece inúmeros exemplos possíveis.
Imagine uma pessoa que acredita que determinada instituição religiosa é moralmente superior.
Então surgem denúncias de corrupção, abuso de poder, exploração financeira ou violência psicológica dentro daquela instituição.
A informação entra em conflito com a imagem que a pessoa possui.
Ela poderia concluir:
"Essa instituição tem problemas e minha crença precisa ser reconsiderada."
Mas também poderia procurar outras explicações:
"Esse líder é uma exceção."
"A instituição é boa; o problema são algumas pessoas."
"Isso é perseguição religiosa."
"O inimigo está tentando destruir nossa fé."
"Não podemos julgar a religião por causa de um indivíduo."
Algumas dessas afirmações podem inclusive ser verdadeiras em determinadas situações.
Uma instituição realmente pode ser maior do que um indivíduo.
Uma denúncia realmente pode ser falsa.
Uma acusação realmente pode estar sendo utilizada de maneira política.
O ponto não é afirmar que toda defesa é irracional.
O ponto é observar que a necessidade de proteger uma crença pode influenciar a maneira como avaliamos as evidências.
E isso pode acontecer tanto com religiosos quanto com pessoas não religiosas.
9. O problema não é apenas a religião
É importante fazer essa ressalva.
Seria extremamente fácil utilizar o conceito de dissonância cognitiva para dizer:
"Olhem como os religiosos são irracionais."
Mas isso seria justamente uma demonstração de pensamento pouco crítico.
A dissonância cognitiva não é um mecanismo exclusivo de pessoas religiosas.
Acontece com pessoas ateias, agnósticas, espiritualistas, conservadoras, progressistas, liberais, socialistas, capitalistas, cientistas, acadêmicos, ativistas e qualquer outro grupo humano.
Qualquer pessoa pode desenvolver vínculos emocionais com suas crenças.
Qualquer pessoa pode defender uma ideia porque ela faz parte de sua identidade.
Qualquer pessoa pode rejeitar uma informação inconveniente.
E qualquer pessoa pode racionalizar uma decisão depois de tomá-la.
A pergunta importante, portanto, não é:
"Por que aquelas pessoas fazem isso?"
É:
"Em quais situações eu faço isso?"
10. O efeito dos grupos
Os seres humanos são animais sociais.
Nós precisamos de pertencimento.
Família, amigos, comunidades, movimentos políticos, religiões, profissões e grupos culturais ajudam a construir nossa identidade.
Isso possui inúmeras vantagens.
Pertencer a um grupo pode oferecer apoio, segurança, amizade e significado.
Mas existe também um risco.
Quanto mais importante um grupo se torna para nossa identidade, maior pode ser o custo psicológico de discordar dele.
Imagine uma pessoa que pertence há vinte anos a uma determinada comunidade política.
Durante todo esse período, ela construiu amizades dentro daquele grupo.
Ela compartilha símbolos, expressões, referências e valores.
Agora surge uma informação que contradiz uma das principais crenças do grupo.
Aceitar aquela informação pode significar entrar em conflito com pessoas que ama.
Em consequência, a pressão para rejeitar a informação pode ser enorme.
Nesse contexto, a dissonância cognitiva se mistura com outro fenômeno importante: a influência social.
Não queremos apenas estar certos.
Também queremos continuar pertencendo.
11. Por que as redes sociais podem piorar o problema?
As redes sociais adicionaram uma nova dimensão a esse fenômeno.
Antigamente, uma pessoa podia defender uma opinião equivocada em uma conversa com amigos e, depois de algum tempo, simplesmente mudar de ideia.
Hoje, ela pode ter milhares de publicações registradas.
Pode ter compartilhado dezenas de vídeos.
Pode ter atacado pessoas que discordavam.
Pode ter acumulado seguidores justamente por defender aquela posição.
Isso aumenta o custo psicológico de admitir um erro.
Além disso, os algoritmos das plataformas tendem a expor os usuários a conteúdos semelhantes àqueles com os quais já interagem.
A pessoa passa a viver dentro de um ambiente informacional no qual sua visão de mundo é constantemente reforçada.
Ela encontra pessoas que pensam como ela.
Compartilha informações com elas.
Recebe aprovação.
Ganha curtidas.
Recebe comentários de apoio.
E começa a interpretar a concordância do grupo como confirmação de que está certa.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter muitas pessoas concordando conosco e estar correto.
Popularidade não é evidência.
Número de curtidas não é evidência.
Quantidade de seguidores não é evidência.
Uma informação se torna mais confiável quando existem boas razões e evidências para sustentá-la, não simplesmente porque milhares de pessoas acreditam nela.
12. A armadilha do "meu grupo também faz"
Uma das formas mais comuns de reduzir o desconforto causado por uma crítica é apontar imediatamente para o adversário.
"Mas o outro lado também faz."
Esse argumento pode até ser verdadeiro.
O problema é que ele não responde à questão original.
Se alguém diz:
"Essa pessoa cometeu um ato errado."
e respondemos:
"Mas o seu grupo também faz coisas erradas."
não eliminamos o problema.
Apenas mudamos o assunto.
Esse mecanismo é muito frequente na política.
Uma denúncia contra o grupo A recebe como resposta uma denúncia contra o grupo B.
Uma crítica a uma religião recebe como resposta uma crítica a outra religião.
Uma discussão sobre determinada ideologia rapidamente se transforma em uma lista de erros cometidos por seus adversários.
O raciocínio crítico exige uma capacidade incômoda:
conseguir reconhecer um problema no próprio grupo sem precisar justificar o problema apontando para outro grupo.
13. Justificação depois da decisão
Outro aspecto interessante da dissonância cognitiva aparece quando precisamos justificar decisões que já tomamos.
Imagine que alguém compre um produto caro e depois descubra que outro produto semelhante é muito melhor.
É possível que essa pessoa comece a procurar argumentos para demonstrar que fez uma excelente escolha.
"Mas o meu tem um design melhor."
"O outro provavelmente quebra mais rápido."
"O meu tem uma marca mais confiável."
Talvez essas afirmações sejam verdadeiras.
Mas também podem representar uma tentativa de reduzir o desconforto causado pela possibilidade de ter tomado uma decisão ruim.
Esse mecanismo aparece em situações muito mais importantes.
Escolhas profissionais.
Relacionamentos.
Investimentos.
Decisões políticas.
Mudanças de cidade.
Escolhas religiosas.
Projetos pessoais.
Quanto maior o investimento emocional, financeiro ou temporal, maior pode ser o desejo de justificar a decisão.
14. O perigo de pensar: "Já investi demais para desistir"
Aqui encontramos uma relação importante entre dissonância cognitiva e o chamado custo irrecuperável.
Imagine alguém que passou dez anos defendendo uma determinada teoria.
Depois de uma década, aparecem evidências bastante fortes de que aquela teoria está equivocada.
A pessoa poderia dizer:
"Passei dez anos acreditando nisso. Talvez seja hora de rever minha posição."
Mas pode pensar:
"Não posso ter perdido dez anos."
Então continua.
Esse raciocínio pode produzir uma situação curiosa:
quanto mais investimos em uma ideia, mais difícil pode ser abandoná-la.
É como se o passado se transformasse em argumento para continuar no mesmo caminho.
Mas o tempo já investido não pode ser recuperado.
A pergunta racional deveria ser:
"Sabendo o que sei hoje, eu escolheria continuar acreditando nisso?"
Essa pergunta nos liberta parcialmente da necessidade de proteger decisões anteriores.
15. Dissonância cognitiva não significa burrice
Esse ponto merece destaque.
Uma pessoa que experimenta dissonância cognitiva não é necessariamente burra.
Também não é necessariamente desonesta.
Ela pode ser extremamente inteligente.
Na realidade, pessoas inteligentes podem possuir uma capacidade particularmente sofisticada de construir argumentos para defender aquilo em que já acreditam.
Inteligência não garante pensamento crítico.
Uma pessoa pode possuir excelente capacidade de raciocínio e ainda utilizá-la para racionalizar uma crença.
Isso acontece porque raciocinar bem e raciocinar de maneira imparcial são coisas diferentes.
Uma pessoa pode ser excelente em encontrar argumentos.
A questão é: ela está procurando a verdade ou procurando uma justificativa?
16. Pensamento crítico não é desconfiar de tudo
Quando falamos em pensamento crítico, algumas pessoas imaginam que significa questionar absolutamente tudo.
Não é isso.
Pensamento crítico não significa acreditar em qualquer coisa.
Também não significa desacreditar de qualquer coisa.
Significa avaliar afirmações de maneira cuidadosa.
Perguntar:
- Qual é a evidência?
- A fonte é confiável?
- Existem outras explicações possíveis?
- Estou considerando informações que contradizem minha opinião?
- Estou aplicando o mesmo critério ao meu grupo e ao grupo adversário?
- Estou confundindo opinião com fato?
- Estou rejeitando uma informação porque ela é falsa ou porque não gosto dela?
- O que me faria mudar de ideia?
Essa última pergunta é particularmente importante.
Se a resposta for:
"Nada."
então talvez não estejamos diante de uma crença baseada em evidências.
Estamos diante de uma crença protegida contra qualquer possibilidade de revisão.
17. Como perceber a dissonância cognitiva em nós mesmos?
Uma das melhores maneiras de desenvolver pensamento crítico é observar nossas próprias reações emocionais.
Preste atenção quando alguém apresenta uma informação que contradiz uma crença importante.
Você sente raiva imediatamente?
Quer atacar a pessoa?
Procura automaticamente uma justificativa?
Muda de assunto?
Começa a falar dos erros do adversário?
Questiona a fonte sem sequer verificar o conteúdo?
Sente necessidade urgente de provar que está certo?
Essas reações não provam que estamos errados.
Mas podem indicar que estamos emocionalmente envolvidos com o assunto.
Nesse momento, vale a pena diminuir a velocidade.
Em vez de responder imediatamente:
"Isso é mentira!"
podemos perguntar:
"Por que isso me incomodou tanto?"
Essa pergunta pode ser muito mais reveladora do que a própria discussão.
18. A maturidade de mudar de ideia
Existe uma ideia culturalmente muito prejudicial de que mudar de opinião significa ser fraco.
Não significa.
Mudar de opinião diante de novas evidências pode ser uma demonstração de maturidade intelectual.
A ciência funciona justamente assim.
Hipóteses são propostas.
Evidências são analisadas.
Resultados são comparados.
Modelos são modificados.
Teorias são aperfeiçoadas ou abandonadas quando deixam de explicar adequadamente os dados.
O pensamento crítico deveria funcionar de maneira semelhante na vida cotidiana.
Não precisamos abandonar nossas convicções diante de qualquer crítica.
Mas precisamos permitir que nossas convicções possam ser revisadas.
Uma pessoa intelectualmente madura não é aquela que nunca muda de opinião.
É aquela que consegue dizer:
"Eu estava errado."
E também:
"Eu não sei."
Essas duas frases podem ser muito mais difíceis de pronunciar do que parecem.
19. A verdade pode ameaçar mais do que uma opinião
É aqui que chegamos ao ponto central deste artigo.
Às vezes, uma crença não protege apenas uma ideia.
Ela protege uma história que contamos sobre nós mesmos.
"Eu sou inteligente."
"Eu sou uma pessoa justa."
"Eu escolho sempre o lado certo."
"Minha família me ensinou a verdade."
"Meu grupo representa o bem."
"Meu líder é diferente dos outros."
"Minha religião é moralmente superior."
"Eu jamais seria enganado."
Quando uma evidência ameaça uma dessas afirmações, o problema deixa de ser simplesmente intelectual.
Torna-se psicológico.
A pessoa não está mais defendendo apenas uma informação.
Está defendendo a imagem que possui de si mesma.
E talvez seja por isso que algumas discussões sejam tão difíceis.
Não estamos discutindo apenas fatos.
Estamos discutindo identidades.
Conclusão
A dissonância cognitiva nos ajuda a compreender uma característica profundamente humana: nossa mente não busca apenas informações. Ela também busca coerência.
Quando aquilo em que acreditamos entra em conflito com aquilo que descobrimos, surge desconforto.
Podemos então mudar nossa opinião.
Podemos modificar nosso comportamento.
Podemos procurar novas informações.
Podemos reconsiderar nossas decisões.
Mas também podemos fazer algo muito mais confortável: encontrar uma explicação que preserve aquilo em que já acreditávamos.
É assim que uma pessoa pode encontrar uma informação e dizer:
"Isso não pode ser verdade."
Depois encontrar outra.
"E isso também está errado."
Depois uma terceira.
"Estão tentando manipular você."
E continuar indefinidamente.
Não necessariamente porque todas as informações sejam verdadeiras.
Mas porque aceitar algumas delas poderia exigir algo emocionalmente muito mais difícil do que reconhecer um erro factual.
Poderia exigir reconstruir uma parte da própria identidade.
Por isso, estudar a dissonância cognitiva não deveria servir apenas para apontar o dedo para pessoas que defendem políticos, líderes religiosos, ideologias ou personalidades públicas.
Ela deveria servir para olhar para dentro.
Todos nós temos crenças que consideramos importantes.
Todos nós temos grupos dos quais fazemos parte.
Todos nós já tomamos decisões que precisamos justificar.
Todos nós podemos interpretar informações de maneira enviesada quando aquilo que está em jogo possui importância emocional para nós.
A diferença está na disposição para reconhecer isso.
Pensamento crítico não significa acreditar que somos incapazes de errar.
Significa reconhecer justamente o contrário:
somos perfeitamente capazes de errar.
Por isso precisamos de mecanismos que nos permitam perceber nossos próprios erros.
Precisamos aprender a separar identidade de opinião.
Precisamos aceitar que mudar de ideia não apaga nosso passado.
Precisamos compreender que admitir um erro não diminui nosso valor.
E, principalmente, precisamos desenvolver a coragem intelectual de perguntar:
"E se eu estiver errado?"
Essa pergunta pode ser desconfortável.
Mas também pode ser uma das perguntas mais libertadoras que uma pessoa é capaz de fazer.
Porque, às vezes, a verdade não ameaça apenas uma opinião.
Ela ameaça o personagem que construímos para nós mesmos.
E talvez a verdadeira maturidade intelectual comece justamente quando percebemos que não precisamos proteger esse personagem a qualquer custo.
Referências bibliográficas
- FESTINGER, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.
- ARONSON, Elliot. The Social Animal. New York: Worth Publishers.
- ARONSON, Elliot; MILLS, Judson. The effect of severity of initiation on liking for a group. Journal of Abnormal and Social Psychology, 1959.
- COOPER, Joel. Cognitive Dissonance: 50 Years of a Classic Theory. London: SAGE Publications, 2007.
- KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
- NICKERSON, Raymond S. Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises. Review of General Psychology, 1998.
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